
Em 2008, o fotojornalista Antônio Gaudério, então com 49 anos, sofreu um grave acidente doméstico ao cair em um buraco de três metros durante uma visita a uma obra da família. O impacto causou perda de massa encefálica e o fez enfrentar um longo processo de reabilitação — reaprendendo a andar, falar e até comer.
Junto com a memória, parecia ter se apagado também parte de sua história profissional, marcada por imagens potentes que documentaram desigualdades sociais, questões ambientais e o cotidiano brasileiro.
“Vi o nome do meu pai desaparecer, as pessoas esquecendo o trabalho dele, da mesma forma que ele havia esquecido tudo”, relata Ana Aurora Borges, filha do fotógrafo.
Mais de uma década depois, já mestranda em Arte e Literatura pela Unifesp, Aurora decidiu revisitar o acervo do pai — caixas com negativos, disquetes, CDs e HDs guardados desde antes do acidente. A redescoberta do material deu origem a um projeto de resgate, iniciado em 2020, com a criação da conta @antonio.gauderio no Instagram.
Ali, as fotografias começaram a ser publicadas com seus contextos originais, despertando o interesse de um público que reconheceu em Gaudério não apenas o fotojornalista premiado, mas um artista cuja obra revela a dimensão social e política do Brasil das últimas décadas.
“Meu pai passou a revisitar as próprias imagens, escolher molduras, discutir impressões. Foi um processo de reaprendizado e reconexão com o que ele sempre foi: um contador de histórias por meio da fotografia”, conta Aurora.
Esse movimento culminou na exposição “Antônio Gaudério: Memória em Imagens”, inaugurada em 25 de setembro de 2025 no Centro Universitário Senac Santo Amaro, em São Paulo.
Com curadoria compartilhada entre Gaudério e o também fotógrafo Jorge Araújo, a mostra reúne mais de 30 imagens em grande formato que retratam temas como trabalho infantil, prostituição, desigualdade social, degradação ambiental e a vida nas periferias urbanas.
As fotografias, que permanecem expostas até março de 2026, estão à venda, e parte da renda será destinada à manutenção do acervo e de novas ações de preservação da obra.
Paralelamente, está em produção o documentário “Gaudério – A Estética da Indignação”, dirigido por Chico Gomes e produzido pela Modernista Filmes. O filme acompanha a trajetória de reabilitação do fotógrafo e o processo de reconstrução de sua identidade por meio das imagens.
Gaudério construiu sua carreira com olhar atento às contradições do país. Entre suas fotos mais emblemáticas, está a imagem de uma garça pousando sobre a lagoa de Carapicuíba, coberta pelo lodo do rio Tietê — metáfora visual da contaminação ambiental que marcou parte de seu trabalho.
“Se somos feitos da nossa memória e das nossas experiências, o que resta quando perdemos tudo isso?”, reflete Aurora. “Talvez meu pai tenha se tornado uma nova pessoa — e, com ele, nasceu também uma nova forma de olhar suas imagens.”
O reencontro entre pai e filha, mediado pela arte, transformou a perda em possibilidade: um novo olhar sobre a fotografia, a memória e o tempo.
Exposição: Antônio Gaudério: Memória em Imagens
Curadoria: Antônio Gaudério e Jorge Araújo
Local: Centro Universitário Senac Santo Amaro – Biblioteca
Endereço: Av. Eng. Eusébio Stevaux, 823, Santo Amaro, São Paulo (SP)
Período: de 25/09/2025 a 02/03/2026
Horário: segunda a sexta, das 8h às 22h; sábados, das 8h às 14h
Entrada: gratuita
Classificação: livre
Informações: (11) 9433-17057
Mín. 17° Máx. 26°